Frente a desafios como a alta taxa de evasão escolar e a falta de representatividade em cargos de liderança, empresas têm investido na captação e retenção de talentos trans com iniciativas que vão desde o apoio educacional à cirurgia de afirmação de gênero e financiamento de tratamento com hormonioterapia (tratamento usado por pessoas trans para modificar o seu corpo e se parecer mais com o gênero com qual se identificam).

Nesta segunda-feira, é comemorado o Dia Nacional da Visibilidade Trans. Mas, no Brasil, apenas 4% das pessoas trans e travestis estão empregados no mercado de trabalho formal e 0,02% tiveram acesso ao ensino superior, de acordo com dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (Antra).

A estudante de Direito Natalia Ramos, de 26 anos, é uma das poucas trans a desafiar essas estatísticas. Graças ao seu estágio na Mondelez, ela pôde retornar a fazer a hormonioterapia, que havia sido interrompida por falta de dinheiro.

Agora, ela se prepara para passar por uma cirurgia de afirmação de gênero, que será custeada pelo plano de saúde da firma.

No SUS, ela chegou a encontrar uma fila de cinco anos de espera para o procedimento. Na saúde privada, a operação sai por volta de R$ 80 mil.

Natalia Ramos, de 26 anos, estudante de Direito e estagiária na Mondelez Brasil — Foto: Edilson Dantas/Agência O Globo

Natalia deixou a faculdade em 2014 por não ter os seus documentos retificados com o seu nome social e pelas situações desconfortáveis em que isso lhe colocava:

— Eu não queria parar, mas como o meu nome não estava retificado, pessoas da minha sala descobriram e faziam comentários preconceituosos. Isso foi me deixando mal, eu me sentia cada vez mais insegura — ela conta.

Atualmente, no Brasil, é possível mudar o nome nos documentos, basta ir a um cartório. Mas até 2018, isso não era permitido. Era necessário entrar com uma ação na Justiça, processo demorado, caro e, muitas vezes, constrangedor.

Ela só voltou à universidade em 2020, com os documentos devidamente retificados. Dois anos depois, através da plataforma TransEmpregos, que conecta pessoas trans a oportunidades profissionais, ela conseguiu seu primeiro emprego e foi chamada para o seu atual estágio.

— Foi um alívio, todo mundo aqui na Mondelez sempre foi muito aberto. Por muito tempo eu acreditei que nenhum lugar iria me querer, mas isso não é verdade — diz Natalia. — É importante tentar entender o lugar em que você está se inserindo para saber se a empresa é inclusiva e vai te fazer bem.

A Mondelez Brasil ainda oferece assessoria jurídica para colaboradores trans que quiserem retificar o nome em seus documentos e tem parcerias com instituições voltadas para a comunidade LGBTQIA+.

O Mercado Livre também oferece suporte para a retificação de documentos, disponibiliza atendimento psicológico e lidera a intermediação junto ao plano de saúde da empresa para oferecer cirurgia de afirmação de gênero e tratamento hormonal gratuitamente. Na B3, colaboradores têm direito até mesmo a um auxílio financeiro para compra de novas roupas durante a transição.

Já a TIM financia cursos de ensino superior, idiomas e pós-graduação para todos os funcionários trans. O Grupo SBF, dono da Centauro, também oferece assessoria para a retificação de documentos e usa a TransEmpregos para anunciar vagas afirmativas e captar talentos.

Marina Dayrell, consultora em Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI), argumenta que não adianta pensar em diversidade no momento da contratação sem pensar em como essas pessoas irão se sentir dentro da empresa:

— Quando falamos de grupos minorizados, principalmente da população trans e travesti, não dá para as empresas assumirem um papel que começa apenas quando a pessoa chega à vida adulta e pode ingressar na organização. Esse papel precisa ser anterior, justamente para ajudar a reparar as desigualdades que temos na sociedade hoje — ela afirma.

Segundo a Antra, o Brasil está há 15 anos na liderança do ranking de países que mais matam pessoas trans no mundo, e a expectativa de vida para trans e travestis é de 35 anos, menos da metade da média nacional de 75,5, medida pelo IBGE.

Na KPMG, a sócia Danielle Torres, que está na empresa desde 2005, foi a primeira mulher trans a se tornar uma executiva no Brasil.

Danielle Torres, sócia da KPMG, a primeira mulher trans a se tornar uma executiva no Brasil — Foto: Edilson Dantas/Agência O Globo

— Quando comuniquei à organização que era trans, minha primeira reação foi pedir demissão, porque achei que não ia dar, mas a história acabou sendo totalmente diferente. — lembra Danielle.

— Apesar de falar muito sobre diversidade, o que eu acho legal para inspirar outras pessoas, minhas últimas entrevistas acho que foram mais sobre impacto da Inteligência Artificial, porque minha carreira sempre foi na área financeira e não precisa ser só sobre diversidade. Sou uma pessoa como todas as outras.

Niodara, consultora em Diversidade e Inclusão, explica que a representatividade de minorias em posições de liderança é importante para inspirar os funcionários e promover a diversidade nas empresas:

— No momento em que eu não consigo ver pessoas parecidas comigo na organização, principalmente em posições de liderança, eu automaticamente entendo que talvez naquela organização não tem espaço para o meu crescimento — ela ilustra. — Fora que uma liderança trans mais facilmente vai contratar outra pessoa trans, além de contribuir mais para as estratégias de diversidade e inclusão.

Noah Scheffel, de 37, que mora em Porto Alegre, trabalhava há dez anos como gestor de tecnologia em uma empresa quando se assumiu como um homem trans, mas não encontrou a mesma receptividade.

— Colegas não aceitavam me chamar pelo meu nome, não podia utilizar o banheiro da empresa e tinha que passar o dia todo sem ir ao banheiro, meus pronomes eram desrespeitados e até tive que lidar com uma funcionária do RH que foi completamente transfóbica comigo. Eu não suportei toda aquela violência — ele lembra.

Scheffel saiu do emprego, buscou apoio psicológico e ficou fora do mercado por um tempo. Quando decidiu retornar, estava determinado a fazer algo para ajudar pessoas trans.

Noah Scheffel, de 37 anos, foi vítima de transfobia no antigo emprego e fundou uma empresa voltada para a capacitação gratuita de pessoas trans e travestis — Foto: Arquivo pessoal

A partir disso, nasceu o EducaTransforma, empresa da qual ele é CEO, voltada para a capacitação profissional gratuita de pessoas trans, uma iniciativa que formou 1.500 alunos desde 2019. O Educa também tem parcerias com empresas e arrecada recursos para oferecer suporte médico e psicológico aos alunos.

— Ingressar no mercado já é o primeiro desafio para pessoas trans, então é importante que as oportunidades sejam justas. E não adianta contratar as pessoas só para dizer que o ambiente é diverso, sem pensar no desenvolvimento de carreira. A pessoa tem que entrar para trabalhar e seguir os sonhos dela — ele diz.

*Estagiária sob a supervisão de Janaina Lage

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empresas já custeiam cirurgias e tratamentos para atrair e reter talentos trans