Americanas, Light, Oi, Grupo Petrópolis, Unigel. É longa a lista de empresas que pediram recuperação judicial em 2023. Entre janeiro e agosto, o número de companhias em reestruturação sob proteção da Justiça já superava o total registrado em 2022. O cenário macroeconômico é desafiador. Por trás disso, porém, há um ponto determinante: a qualidade da gestão das empresas, afirmam especialistas.

Eles frisam que falhas na liderança, foco em resultado financeiro acima de tudo e a falta de um olhar para pessoas derrubam o desempenho e, em alguns casos, podem levar companhias à lona. No momento em que o cenário econômico muda — a taxa básica de juros do país se manteve no patamar elevado de 13,75% ao ano até agosto — as fragilidades na gestão vem à tona. E, em 2023, o caso Americanas foi um marco.

— Estamos assistindo à falência de uma mentalidade (de gestão) que vem da era industrial. As empresas têm de ter três imperativos: pessoas, operações e resultados. Focar só em número gera esses problemas, um ambiente tóxico — destaca Alexandre di Miceli, fundador da Virtuous Company Educação Executiva.

É que o erro de poucos na gestão, intencional ou não, pode driblar protocolos de segurança de mercado e da companhia e impactar a conduta, o desempenho e as relações com funcionários, fornecedores, investidores, com o mercado e o consumidor.

O termo usado hoje para falar de forma ampla sobre a gestão das companhias é governança. Ter boa governança, na prática, é administrar a empresa da melhor maneira possível, tomando decisões com base em ética e transparência, seguindo parâmetros internos, legais e de mercado.

Dívida bilionária, lojas fechadas, ações a centavos: Como a Americanas foi do céu ao inferno em 11 meses

É uma das bases do ESG — conjunto de práticas ambientais, sociais e de governança, na sigla em inglês —, tema sob os holofotes num momento em que as corporações têm sido chamadas a atuar não apenas para gerar resultado financeiro, mas impactar a sociedade e o meio ambiente de forma positiva.

— O “G” deveria vir na frente no ESG. Sem governança correta, não tem ambiental e social sustentável. Quem está no vermelho não pensa no verde — diz Júlio Damião, presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças de Minas Gerais (Ibef-MG).

Veja fotos das Lojas Americanas ao longo dos anos

Empresa com quase um século de existência está sob crise de R$ 20 bilhões em rombo financeiro

O caso da Americanas — entre as maiores varejistas do Brasil e que contava com certificações reconhecendo a governança de qualidade da companhia — é visto como emblemático. Em janeiro, o então novo CEO da empresa, Sergio Rial, renunciou após nove dias no cargo ao divulgar uma “inconsistência contábil” de mais de R$ 20 bilhões em balanços do grupo. As ações tombaram e, com um endividamento superior a R$ 40 bilhões, a Americanas entrou em recuperação judicial.

A empresa foi alvo de uma Comissão Parlamentar de Inquérito na Câmara dos Deputados. Foi quando o atual CEO, Leonardo Coelho Pereira, declarou que o rombo fora resultado de uma fraude articulada pelos antigos gestores da companhia.

Pouco antes do Natal, o plano de recuperação da varejista foi aprovado em assembleia geral de credores. A varejista fechou 121 lojas, tendo 1.759 em operação, e perdeu 14,4% da clientela ativa mensal. O balanço de 2022, revisado e divulgado em novembro, apontou prejuízo de R$ 12,9 bilhões, o maior da história da Americanas. Haverá R$ 24 bilhões em aumento de capital vindo dos acionistas de referência e dos credores financeiros.

A Americanas explicou, em nota, que foi vítima de uma complexa fraude de resultados, que “envolveu a manipulação dolosa dos controles internos por aqueles que mais conheciam tais instrumentos (…) e deveriam zelar pelos interesses da companhia, com o objetivo de incrementar seus ganhos”.

LIght está em recuperação judicial — Foto: Léo Martins/Agência O Globo

E afirmou que a nova gestão vem trazendo a público explicações sobre a arquitetura da fraude com base em documentos e provas. Frisou ainda colaborar com apurações feitas por órgãos como a B3, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e o Ministério Público Federal.

‘Má governança intencional’

O caso da Americanas foi ainda simbólico pelo fato de a empresa ter como acionistas de referências o trio de bilionários da 3G Capital — Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles, três dos homens mais ricos do Brasil e que eram considerados um exemplo de gestões eficientes nas empresas em que investem.

Miceli ressalta que o mercado como um todo precisa aprender com esses erros ocorridos na Americanas, olhar para o papel dos conselhos de administração, dos gestores e do próprio mercado financeiro no monitoramento da boa operação das companhias. E frisa que “fraude contábil não existe”:

— É sempre de gestão, porque é uma questão de pessoas. Transparência e fraude derivam da cultura da organização. Na Americanas, essa cultura é ligada ao lucro. Numa empresa com conceito de sucesso pobre, relacionado a resultado financeiro, ter problema é uma questão de tempo — alerta.

Também Fabio Alperowitch, fundador da Fama Investimentos, gestora que busca principalmente empresas com alto padrão de governança no mercado de capitais, aponta a questão:

— Má governança, em última instância é má gestão. No caso da Americanas, houve má governança intencional. Porque, de algum jeito, alguém queria se beneficiar daquilo.

O rombo nos balanços veio da combinação de maquiagem de verbas publicitárias fictícias e ocultação de dívidas em manobra que inflou o resultado da empresa em mais de R$ 25 bilhões.

Recorde de pedidos de recuperação judicial

Os problemas da Americanas respingaram em todo o mercado, sobretudo no varejo — pressionado pelas adversidades da economia —, levantando questionamentos sobre a conduta das demais empresas. Os bancos endureceram o acesso a crédito. E negociações e regras para monitoramento das práticas do comércio foram revisadas e tornadas mais rígidas.

— Foi um ano de recorde de pedidos de recuperação judicial. Todos culpam os juros altos, mas não são a causa. Quando a empresa toma dinheiro a 2% ao ano (patamar dos juros no início de 2020), gira a operação. Se dá prejuízo e, ao invés de consertar, deixa de fazer o dever de casa, com a Selic (taxa básica de juros) a 13%, terá problemas — destaca Damião, do Ibef-MG.

No cenário econômico adverso, diz ele, as companhias têm tido dificuldade de comunicar sua realidade de caixa e contornar dificuldades. E isso vale, inclusive, para as empresas que não estão em processo de reestruturação e são lucrativas, caso do Magazine Luiza, avalia o especialista.

— A Casas Bahia fez um follow on e captou menos dinheiro do que precisava, as ações da empresa foram abaixo de R$ 1 — observa. — O Magalu divulgou um erro contábil juntando um prejuízo e um crédito fiscal.

Em setembro, a Casas Bahia recuperou seu antigo nome, deixando Via de lado, e anunciou o fechamento de até cem lojas. Lançou ações em Bolsa para captar R$ 1 bilhão, mas alcançou pouco mais de R$ 600 milhões. Procurada, a Casas Bahia não comentou.

No mês passado, o Magazine Luiza divulgou um erro contábil identificado após investigação aberta para apurar uma denúncia anônima. Isso exigiu uma redução de R$ 830 milhões no patrimônio líquido da companhia.

O registro de receitas de bonificações comerciais emitidas pela varejista e assinadas por fornecedores não foram registradas com precisão, explicou o Magalu. Daí a baixa. Na conta final, porém, a empresa abateu créditos fiscais de PIS/Cofins sobre bonificações de fornecedores, com um ajuste final de R$ 322,1 milhões no balanço do terceiro trimestre.

— Anunciamos o resultado de uma apuração definitiva, após atuação efetiva. A companhia foi transparente ao divulgar os dois fatos, o ajuste contábil e o crédito fiscal. O efeito é o total corrigido. Não minimizamos um nem maximizamos outro. Não teve efeito de amenizar — diz Vanessa Rossini, gerente de Relações com Investidores do Magalu.

De janeiro a outubro, 1.128 empresas pediram recuperação no Brasil. Em todo 2023 foram 833, segundo a Serasa Experian. O varejo, que amarga ainda dificuldades pela perda do poder de consumo da população nos últimos anos, é afetado em particular. As redes de livrarias Saraiva e Cultura, que já estavam em recuperação judicial, por exemplo, tiveram falência decretada.

Mesmo com a economia melhorando, o cenário adverso para as empresas deve perdurar ainda no primeiro semestre de 2024, exigindo boa gestão num ambiente mais competitivo.

Controles de reguladores e da Bolsa em xeque

Casos como o da Americanas hoje ou de companhias envolvidas na Operação Lava-Jato, há quase dez anos, levantam questionamentos sobre a eficácia das regras estabelecidas para coibir irregularidades em companhias do país, sobretudo as listadas em Bolsa.

A B3 tem uma série de regras específicas para cada um dos segmentos de listagem. O Novo Mercado concentra as empresas com o nível mais alto de governança. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), regulador do mercado de capitais, também define e fiscaliza um conjunto de práticas a serem observadas pelas companhias.

Em paralelo, internamente, as empresas precisam contar com uma estrutura organizada de controles que vai além dos gestores e do Conselho de Administração, abarcando conselhos fiscais, auditorias internas e externas, entre outros.

— As regras são importantes. Mas é um erro achar que governança se trata de um monte de regras. A empresa pode bater todo o checklist de exigências e não ter boa gestão — destaca Fabio Alperowitch, da Fama Investimentos. — O mercado também precisa pressionar por boa gestão, mas foca apenas no curto prazo.

A Americanas sofreu punições pela desobediência às regras do Novo Mercado. A B3 anunciou sua suspensão deste segmento — em decisão inédita — e multas a seus antigos administradores. A varejista recorreu e as sanções estão em suspenso. Há ainda investigações em curso na CVM, na Polícia Federal e no Ministério Público Federal.

— No pós-Lava-Jato, se investiu em programas de compliance. Mas sem mudança de mentalidade na gestão, é como enxugar gelo — alerta Alexandre di Miceli, da Virtuous Company Educação Executiva.

Luiz Martha, gerente de Pesquisa e Conteúdo do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), explica o problema:

— Não temos sistemas 100% à prova de pessoas. As regras estão sendo postas em práticas ou são apenas vitrine? Depende da governança, que funciona como um seguro. Ela não garante que não haverá acidente ou perda, mas limita as chances de perda.

Em agosto, o IBGC revisou as bases recomendadas a uma boa gestão, incluindo a integridade numa cesta agora de cinco recomendações.

— É que não bastam práticas e processos. É preciso criar um clima na organização que incentive as pessoas a tomarem decisões certas, a externar opiniões — diz Martha.

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por que tantas empresas foram à lona em 2023? E quais são as lições?